Genesis 19: Sodoma e Gomorra e a fuga de Lo

Gênesis 19 narra a destruição de Sodoma e Gomorra, a intervenção dos dois anjos, a fuga de Ló e o episódio de sua esposa transformada em estátua de sal, encerrando com o relato das filhas de Ló. É um dos capítulos mais densos do Gênesis, e reúne temas de hospitalidade, juízo divino, misericórdia e as consequências das escolhas humanas.
1. Contexto do capítulo
Gênesis 19 dá continuidade direta ao capítulo 18, em que Abraão intercede pelas cidades da planície e o Senhor concorda em poupá-las caso encontre um número mínimo de justos. Os dois anjos que haviam visitado Abraão seguem para Sodoma, onde Ló, sobrinho de Abraão, está estabelecido. O capítulo mostra o desfecho daquela intercessão: não havendo justos suficientes, o juízo se cumpre, mas a misericórdia alcança Ló e sua família.
2. O texto bíblico (Bíblia Livre, CC BY 3.0)
Fonte: Bíblia Livre (BLIVRE), sob licença Creative Commons Atribuição 3.0. Domínio de uso livre com crédito.
Capítulo 19
Ló recebe homens santos — Os homens de Sodoma procuram abusar dos hóspedes de Ló e são feridos de cegueira — Ordena-se a Ló que saia de Sodoma — O Senhor faz chover enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra — As filhas de Ló preservam a semente dele na terra.
1 E chegaram dois anjos a Sodoma à tarde, e estava Ló assentado à porta de Sodoma; e vendo-os Ló, levantou-se ao seu encontro, e inclinou-se com o rosto à terra;
2 E disse: Eis agora, meus senhores, entrai, peço-vos, na casa de vosso servo, e passai nela a noite, e lavai os vossos pés; e de madrugada vos levantareis, e seguireis vosso caminho. E eles disseram: Não, antes na rua passaremos a noite.
3 E porfiou com eles muito, e foram com ele, e entraram em sua casa; e fez-lhes banquete, e assou bolos sem levedura, e comeram.
4 E antes que se deitassem, cercaram a casa os homens daquela cidade, os homens de Sodoma, desde o moço até o velho; todo o povo de todos os bairros.
5 E chamaram Ló e disseram-lhe: Onde estão os homens que a ti vieram nesta noite? Traze-os para fora a nós, para que os conheçamos.
6 Então saiu Ló a eles à porta, e fechou a porta atrás de si,
7 E disse: Meus irmãos, rogo-vos que não façais mal.
8 Eis aqui, duas filhas tenho, que ainda não conheceram homem; deixai-me, rogo-vos, trazê-las para fora, e fareis delas como for bom aos vossos olhos; somente nada façais a estes homens, porque por isso vieram à sombra do meu telhado.
9 Eles, porém, disseram: Sai daí. Disseram mais: Como estrangeiro este indivíduo veio aqui habitar, e quereria ser juiz em tudo? Agora faremos mais mal a ti do que a eles. E arremessaram-se sobre o homem, sobre Ló, e aproximaram-se para arrombar a porta.
10 Aqueles homens, porém, estenderam a sua mão, e fizeram Ló entrar com eles na casa, e fecharam a porta,
11 E feriram de cegueira os homens que estavam à porta da casa, desde o menor até o maior, de maneira que se cansaram à procura da porta.
12 Então disseram aqueles homens a Ló: Tens alguém mais aqui? Teu genro, e teus filhos, e tuas filhas, e todos quantos tens nesta cidade, tira-os para fora deste lugar;
13 Porque nós vamos destruir este lugar, porque o seu clamor aumentou diante da face do Senhor, e o Senhor nos enviou para destruí-lo.
14 Então saiu Ló e falou a seus genros, aos que haviam de casar com as suas filhas, e disse: Levantai-vos, saí deste lugar, porque o Senhor há de destruir a cidade. Foi tido, porém, por zombador aos olhos de seus genros.
15 E ao amanhecer os anjos apressaram Ló, dizendo: Levanta-te, toma tua mulher, e tuas duas filhas que aqui estão, para que não pereças na injustiça desta cidade.
16 Ele, porém, demorava-se, e aqueles homens o pegaram pela mão, e pela mão de sua mulher, e pela mão de suas duas filhas, sendo-lhe o Senhor misericordioso, e tiraram-no, e puseram-no fora da cidade.
17 E aconteceu que, tirando-os para fora, disse: Escapa por tua vida; não olhes para trás de ti, e não pares em toda esta campina; escapa lá para o monte, para que não pereças.
18 E Ló disse-lhe: Assim não, meu Senhor!
19 Eis que agora o teu servo achou graça aos teus olhos, e engrandeceste a tua misericórdia que a mim me fizeste, para guardar a minha alma em vida; e eu não posso escapar para o monte, para que porventura não me apanhe esse mal, e eu morra.
20 Eis que agora esta cidade está perto, para fugir para lá, e é pequena; ora, deixa-me escapar para lá (não é pequena?), para que minha alma viva.
21 E disse-lhe: Eis que eu te concedo também esse pedido, de não derrubar essa cidade de que falaste.
22 Apressa-te, escapa para ali; porque nada poderei fazer enquanto não tiveres ali chegado. Por isso se chamou o nome da cidade Zoar.
23 Saiu o sol sobre a terra, quando Ló entrou em Zoar.
24 Então o Senhor fez chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo do Senhor desde os céus;
25 E derrubou aquelas cidades, e toda aquela campina, e todos os moradores daquelas cidades, e o que nascia da terra.
26 E a mulher de Ló olhou para trás dele, e ficou convertida numa estátua de sal.
27 E Abraão levantou-se aquela mesma manhã, de madrugada, e foi para aquele lugar onde estivera diante da face do Senhor;
28 E olhou para Sodoma e Gomorra, e para toda a terra da campina; e viu, e eis que a fumaça da terra subia, como a fumaça de uma fornalha.
29 E aconteceu que, quando destruiu Deus as cidades da campina, Deus se lembrou de Abraão, e tirou Ló do meio da destruição, quando derrubou aquelas cidades em que Ló habitara.
30 E subiu Ló de Zoar, e habitou no monte, e as suas duas filhas com ele, porque temia habitar em Zoar; e habitou numa caverna, ele e as suas duas filhas.
31 Então a primogênita disse à menor: Nosso pai já é velho, e não há homem na terra que se achegue a nós, segundo o costume de toda a terra;
32 Vem, demos de beber vinho a nosso pai, e deitemo-nos com ele, para que conservemos em vida a semente de nosso pai.
33 E deram de beber vinho a seu pai naquela noite; e foi a primogênita, e deitou-se com seu pai, e não sentiu ele quando ela se deitou, nem quando se levantou.
34 E sucedeu, no outro dia, que a primogênita disse à menor: Vês aqui, eu já ontem à noite me deitei com meu pai; demos-lhe de beber vinho também esta noite, e então entra tu, deita-te com ele, para que conservemos em vida a semente de nosso pai.
35 E deram de beber vinho a seu pai também naquela noite; e levantou-se a menor, e deitou-se com ele; e não sentiu ele quando ela se deitou, nem quando se levantou.
36 E as duas filhas de Ló conceberam de seu pai.
37 E a primogênita deu à luz um filho, e chamou o seu nome Moabe; esse é o pai dos moabitas, até o dia de hoje.
38 E a menor também deu à luz um filho, e chamou o seu nome Ben-Ami; esse é o pai dos filhos de Amom, até o dia de hoje.
3. Estrutura e divisão do capítulo
- Versículos 1 a 3: a chegada dos anjos e a hospitalidade de Ló.
- Versículos 4 a 11: o cerco à casa e a cegueira imposta aos agressores.
- Versículos 12 a 14: o aviso do juízo e a incredulidade dos genros.
- Versículos 15 a 22: a saída de Ló e o refúgio em Zoar.
- Versículos 23 a 26: a destruição das cidades e a mulher de Ló.
- Versículos 27 a 29: o olhar de Abraão e a lembrança da intercessão.
- Versículos 30 a 38: Ló e suas filhas na caverna, origem de Moabe e Amom.
4. Análise por tradições
Tradição judaica
Na leitura rabínica, Sodoma tornou-se símbolo da crueldade e da inversão da justiça: a tradição destaca a violação do dever de hospitalidade e a opressão do estrangeiro e do pobre como o pecado central das cidades. A intercessão de Abraão e a poupança de Ló são lidas como demonstração de que o juízo divino é medido e não arbitrário.
Tradição cristã
A leitura cristã costuma tomar o episódio como advertência moral e escatológica sobre o juízo. O Novo Testamento cita Sodoma como referência de julgamento e a mulher de Ló como alerta contra o apego ao que fica para trás. A figura de Ló é lembrada como alguém preservado pela misericórdia, apesar da fragilidade.
Tradição histórico-crítica
A abordagem acadêmica situa o relato na tradição das narrativas patriarcais e discute a localização das cidades da planície, associadas à região do mar Morto. Analisa o texto como composição que articula temas de hospitalidade, juízo e origem de povos vizinhos (moabitas e amonitas), com função etiológica.
Tradição simbólica
Numa chave simbólica, as cidades representam estados de consciência endurecidos, o fogo do céu figura a purificação inevitável do que se corrompeu, e o olhar da mulher de Ló para trás simboliza a impossibilidade de progredir enquanto se permanece preso ao passado.
Leitura espírita (inferência analógica)
A leitura a seguir é uma inferência analógica à luz da codificação espírita, e não uma afirmação doutrinária atribuída a Allan Kardec. Nessa perspectiva, o capítulo pode ser meditado como ilustração da lei de causa e efeito: coletividades e indivíduos colhem as consequências das próprias escolhas morais. A misericórdia que alcança Ló sugere que o livre-arbítrio e o esforço de retidão, ainda que imperfeitos, abrem caminho para o amparo. O olhar para trás convida à reflexão sobre desapego e renovação íntima, temas caros ao entendimento espírita de reforma moral.
5. Temas centrais
- Hospitalidade e sua violação: o acolhimento de Ló contrasta com a hostilidade da cidade.
- Juízo e misericórdia: o juízo se cumpre, mas a família de Ló é preservada.
- Consequência das escolhas: as cidades colhem o fruto do que se tornaram.
- Apego e renovação: a mulher de Ló como imagem do olhar preso ao passado.
6. Personagens
- Ló: sobrinho de Abraão, morador de Sodoma, preservado pela misericórdia.
- Os dois anjos: mensageiros do juízo e do resgate.
- A mulher de Ló: cujo olhar para trás a converte em estátua de sal.
- As filhas de Ló: cujo relato final explica a origem de moabitas e amonitas.
- Abraão: ao fundo, o intercessor que observa a fumaça subir.
7. Observação sobre um trecho sensível
O capítulo inclui episódios difíceis, como a oferta das filhas por Ló diante da multidão e, ao final, o relato das filhas e do pai na caverna. A tradição interpretativa, em suas várias linhas, trata esses trechos como registro histórico de práticas e dilemas de um contexto antigo, não como recomendação de conduta. A leitura madura reconhece a dureza do relato e busca nele advertência moral, jamais justificativa.
8. Aplicação e reflexão
Gênesis 19 propõe uma meditação sobre escolhas e consequências, sobre o valor do acolhimento e sobre a necessidade de seguir adiante sem se prender ao que deve ficar para trás. A preservação de Ló lembra que a misericórdia acompanha quem, mesmo imperfeito, se dispõe a caminhar na direção do bem.
9. Perguntas frequentes
O que aconteceu em Gênesis 19?
Gênesis 19 relata a destruição de Sodoma e Gomorra por fogo do céu, a fuga de Ló e sua família por intervenção de dois anjos, a transformação da mulher de Ló em estátua de sal e, ao final, o episódio de Ló e suas filhas na caverna.
Por que Sodoma e Gomorra foram destruídas?
O texto apresenta a destruição como juízo divino sobre a corrupção das cidades. A tradição judaica enfatiza a crueldade e a violação do dever de hospitalidade; a leitura cristã, a advertência moral sobre o juízo.
Por que a mulher de Ló virou estátua de sal?
Ela olhou para trás durante a fuga, contrariando a orientação dos anjos. O episódio é lido simbolicamente como o perigo do apego ao passado quando se é chamado a seguir adiante.
Quem foram Moabe e Ben-Ami?
São os filhos nascidos das filhas de Ló, apresentados no texto como ancestrais dos povos moabita e amonita, vizinhos de Israel.
Qual a leitura espírita de Gênesis 19?
Como inferência analógica, e não como doutrina de Kardec, o capítulo pode ser meditado à luz da lei de causa e efeito e do convite à renovação íntima, com o desapego simbolizado no olhar que não deve voltar-se para trás.
Texto bíblico: Bíblia Livre (BLIVRE), Creative Commons Atribuição 3.0. Este artigo integra a série de estudo do Gênesis do CEAE Filhos de Maria. A leitura espírita é apresentada como inferência analógica, não como doutrina.
